Curitiba
Eu queria ter
asas para poder sumir daquele lugar que me deixava cada vez mais um figurante
de novela. Com essas asas artificiais, eu pude voar não tão longe, mas bem
distante daquele lugar, daquele ninho
estranho. As últimas palavras que ouço foram de desprezo, palavras qual ninguém
gostaria de sentir, nos tímpanos e na alma e faz oito dias que não falo com
alguém e me restou R$72,30, mas preciso de uma jaqueta para esse longo inverno.
Obviamente, não irei a uma loja de grife com R$72,30; esse dinheiro usaria
pagar para entrar nela. Apesar de ser totalmente cafona nos dias de hoje, ainda
tenho um discman, ou tinha, a pilha
dele deu de me deixar em “Vento do Litoral”. Ou o aparelho me deixou com as
pilhas, R$72,00, uma mochila, sete livros de Stephen King e dois de Conan Doyle
(mesmo não gostando dele), revistas velhas, cubo mágico, filmes para fotos, um
relógio, uma Canon e outra Instamatic 177XF, da Kodak, sobrevivente da extinção.
No corpo, uma calça jeans, um terço nas mãos, suéter e um óculos para meu astigmatismo.
Uma das lentes da minha Canon tem um risco enorme e fica um efeito bacana,
assim como a borboleta de enfeite nas fotos do tio e se alguém vir querer
vida fácil para meu lado, que leve todos os meus órgãos, mas deixe minha Kodak!
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