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Curitiba

 

Eu queria ter asas para poder sumir daquele lugar que me deixava cada vez mais um figurante de novela. Com essas asas artificiais, eu pude voar não tão longe, mas bem distante daquele lugar, daquele ninho estranho. As últimas palavras que ouço foram de desprezo, palavras qual ninguém gostaria de sentir, nos tímpanos e na alma e faz oito dias que não falo com alguém e me restou R$72,30, mas preciso de uma jaqueta para esse longo inverno. Obviamente, não irei a uma loja de grife com R$72,30; esse dinheiro usaria pagar para entrar nela. Apesar de ser totalmente cafona nos dias de hoje, ainda tenho um discman, ou tinha, a pilha dele deu de me deixar em “Vento do Litoral”. Ou o aparelho me deixou com as pilhas, R$72,00, uma mochila, sete livros de Stephen King e dois de Conan Doyle (mesmo não gostando dele), revistas velhas, cubo mágico, filmes para fotos, um relógio, uma Canon e outra Instamatic 177XF, da Kodak, sobrevivente da extinção. No corpo, uma calça jeans, um terço nas mãos, suéter e um óculos para meu astigmatismo. Uma das lentes da minha Canon tem um risco enorme e fica um efeito bacana, assim como a borboleta de enfeite nas fotos do tio e se alguém vir querer vida fácil para meu lado, que leve todos os meus órgãos, mas deixe minha Kodak!

Inesperadamente nascido em 1983, meus pais são apaixonados até hoje, na infância veio minha Instamatic com a morte do meu sobrinho mais velho do que eu e minha paixão única era por momentos. Minha paixão morreu quando me casei há treze anos de uma mulher infértil, o que não me incomodava, mas a encomodava. Talvez o motivo da minha grande infelicidade fora por ser fascinado por coisas inesperadas, impulsos, momentos. Não me arrependo.

Eu aceitei a aposentadoria do meu Discman modelo SI-S125, pois é assim que funciona; no caminho as coisas vão te deixando, nascemos sozinhos e morreremos sós, mas bobo era eu de nunca ter aceitado isso enquanto era tempo de fazer-se feliz. Agora tu vives o que não queria por não aceitar a lei da vida... Como Renato Russo sempre falava: “E o vento vai levando tudo embora...” e mesmo não estando mais em casa, posso imaginar perfeitamente o que aconteceu: meu gato Felipe está com fome e minha esposa está ocupada tentando se pendurar no lustre e meu chefe procurando alguém para me substituir. Todos sozinhos e um dependente do outro, só Curitiba está a mesma. Adeus Discman.

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